Intervenção do Presidente da Assembleia Municipal Rodrigo Trancoso na Cerimónia em Comemoração do 25 de Abril

“Comemora-se e celebra-se hoje o 43º aniversário da Revolução ocorrida em 25 de Abril de 1974. Trata-se sem sombra de qualquer dúvida de uma das mais significativas datas da nossa História Coletiva e Contemporânea. Nesta autarquia esta sessão solene ocorre pela quarta vez, coincidindo com a alteração e mudança verificadas aquando das eleições autárquicas realizadas em 29 de setembro de 2013. Nessas eleições uma coligação de seis forças partidárias destronou dos destinos da governação deste município quem nunca nesta casa se dignou homenagear o acontecimento histórico que hoje aqui nos junta.

Esta sessão de hoje reveste-se assim de um significado e simbolismo muito especiais. Temos como oradora convidada a Exma. Senhora Doutora Irene Pimentel e a presença de uma representação da coluna militar comandada por Salgueiro Maia naquela memorável e inesquecível madrugada. Estas duas ilustres presenças constituem para mim, enquanto presidente da Assembleia Municipal, bem como, cidadão, motivo da maior satisfação e emoção. Começo assim por agradecer profunda e profusamente a vossa presença, que muito nos honra e engradece de forma incomensurável esta sessão. Por essa razão, permitam-me que centre esta minha breve intervenção no significado destas duas presenças que se complementam na perfeição.

A si, Prezada Doutora Irene Pimentel expresso o meu mais sentido reconhecimento por todo o seu empenho e esforço, enquanto iminente Historiadora, através das suas investigações e estudos, dos seus livros, no perpetuar e deixar para a atual, bem como para as gerações futuras, muito do que foi e implicou na vida das pessoas a existência de um regime fascista no nosso país que perdurou ao longo de 48 tenebrosos anos.
Tomo a liberdade de destacar um livro seu, no qual de forma profunda, pormenorizada e bem documentada retrata fielmente a história da PIDE. Esta entidade é tão-somente o rosto mais marcante da pura malvadez da essência de uma ditadura que nos espezinhou e humilhou coletivamente. Os testemunhos nessa sua obra contidos de diversas pessoas que caíram nas garras da PIDE são bem elucidativos daquilo que acabei de afirmar. E porque há coisas que não podem ser esquecidas, não resisto a partilhar com todos e todas vós um desses testemunhos registados nesse seu livro: “Sozinho numa cela, sem visibilidade para o exterior, sem nada para fazer, sem ninguém para conversar, sem nada para ler, sem nada para escrever, sem horas, sem dias, atravessando as intermináveis horas dos dias e das noites, o preço no isolamento é verdadeiramente um homem só. Sem tempo e sem espaço, retirado da vida. Como se tivesse sido metido num buraco, e o mundo continuasse a rodar, passando-lhe por cima ou ao lado. Antes entre inimigos. Uma reação significativa era a dos presos em isolamento chamados a interrogatório. Como se ansiava dia a dia essa chamada. Ir a interrogatório como que ir ver o que se passava lá fora. Um regresso ao mundo. E quando se ouvia no corredor os passos da brigada que vinha buscar um preso para interrogatório, e ela se dirigia para a cela ao lado, sentia-se uma amargurada mistura de alívio e frustração. A sorte de não ter ido, de não suportar provavelmente novos vexames ou violências; e o não ter tido a sorte de ir, de ir lá fora”. Doutora Irene Pimentel, muito, mas muito obrigado mesmo, por contribuir para que coletivamente não nos esqueçamos do que foi e significou a ditadura do Estado Novo.

Dirijo agora as minhas palavras para os digníssimos e ilustres representantes da coluna de Salgueiro Maia.
É com muita sentida e genuína emoção que vos vejo aqui. Todos vós corporizaram aquela madrugada libertadora. Ofereceram literalmente o vosso peito às balas, tiveram, no caso do Cabo José Alves Costa, uma pistola apontada à cabeça. Com o vosso gesto altruísta, generoso, corajoso e heróico contribuíram decisivamente para nos devolver o bem mais precioso que uma sociedade digna desse nome pode ter: a Liberdade. A belíssima exposição fotográfica que está patente na entrada principal deste edifício, transporta-nos a todos para as incidências daquele dia memorável. O vosso ato, esse sim, sublinho, esse sim, é merecedor de todas as homenagens que se possam fazer. A vossa presença física no nosso seio, traduzida no lançamento do livro “Os rapazes dos tanques” efetuada ontem no Teatro Municipal do Funchal; nas vossas duas conferências realizadas em duas escolas do Funchal e nas vossas palavras aqui dirigidas a todos nós significam tão-somente que este ano, mais do que comemorar Abril no Funchal pela quarta vez, tivemos o privilégio de contatar de perto, olhos nos olhos, com o puro, verdadeiro e genuíno 25 de Abril. A vossa geração bem como todas as vindouras são assim devedoras eternas do vosso heroísmo, da vossa coragem, da vossa bondade, do vosso altruísmo, da vossa generosidade. E essa dívida eterna, devia ser motivo mais que bastante e suficiente para que hoje todos nós, cidadãos e agentes políticos refletíssemos permanentemente na enorme responsabilidade que é, individual e coletivamente, sermos herdeiros e beneficiários da revolução por vós realizada e se a sociedade que estamos a edificar e a erigir corresponde àquela que Salgueiro Maia ambicionava atingir, quando afirmou, e passo a citar: “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos!” Termino fazendo votos para que coletivamente saibamos e queiramos cumprir Abril em todos os dias da nossa vida. Muito obrigado e um grande Bem-Haja a todos vós! Viva o 25 de Abril!”

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